UMA COSMOLOGIA FABULOSA

ENSAIO DE JEAN GALARD

 

O solo que pisamos na urgência ou na indiferença esconde, sem nós o sabermos, estranhos dramas. Às vezes percebemos os efeitos desta agitação subterrânea: uma erupção vulcânica, um tremor de terra, o tsunami. Frequentemente, no fosso do palco do teatro do mundo, tudo se passa discretamente. Nós convivemos com a convicção que o reino mineral, sob nossos pés é o contrário da vida.

Denise Milan visitou este mundo subterrâneo. As pedras, diz ela, “falam com ela”. Ela foi escutá-las de perto. Tendo-as freqüentado, ela voltou, disposta a compartilhar sua educação pela pedra, segundo a expressão que João Cabral de Melo Neto emprega em um de seus mais célebres poemas.

Uma de suas lições é contada aqui, com o olhar. Nas profundezas, ao mesmo tempo obscuras e luminosas, figuras humanas se inquietam, sofrem e lutam. Seu nome corrente é “ametistas”. Designação bizarra, inventada pelos gregos antigos, para dizer que esta qualidade de pedra “protege da embriaguez”. São, na verdade, formas encapuzadas, ligeiramente curvas, inteiramente empacotadas como em vestes mortuárias que deixam adivinhar a cabeça inclinada e os braços embaraçados. Elas são geradas do ventre vermelho e azul da terra, no calor do magma onde os astros fulguram. Elas habitam as cavernas rutilantes. Mas uma pressão ou um apelo as obriga a subir rumo à perigosa surpefície da terra. Elas são revestidas de uma carapaça ou de uma crosta. Quando esta sombria proteção se fende, cristais violetas suntuosos, que estavam encerrados no interior do manto, aparecem. Os homens agora se alegram. As ametistas, elas, sucumbem em plena glória.

Desta história imemorial, Denise Milan conta os esplendores, as solenidades, as lentidões silenciosas. Ela evoca as ansiedades dos submundos, seus suspiros, seus rituais. Ela fala do fim e do começo, do retorno e do irreversível. Ela mostra isso, por assim dizer, sem tocá-las. Ela não esculpe as pedras, ela não as talha, ela não as fere. Ela tampouco as poli. Ela as oferece ao nosso olhar. Ela lhes dá a palavra. Seu ato artístico é de pô-las em cena, como se fossem pessoas e de permitir que as escutemos.

Este ato não tem a pretensão de uma criação, nem o arrebatamento de uma invenção a partir do nada. Denise Milan não se embriaga de seu poder. Ela age com delicadeza e discrição, talvez porque ela visitou bastante as ametistas, estas pedras que preservam a sobriedade. Ela se comporta num testemunho atento, como se fosse a terra ela - própria que nos revelasse sua via profunda. A aventura que ela propõe é a de um ir e vir entre o saber geológico e a sensibilidade pessoal. Uma “verdade” acontece, que não pertence nem à ortodoxia da ciência, nem à arbitrariedade da ficção. Não é freqüente que um artista nos obrigue tão fortemente a nos interrogar sobre as relações do saber e do crer. Melhor ainda: as páginas que seguem abalam o crer saber (esta insensatez) para substituí-lo pelo saber crer (esta sabedoria).

 

Jean Galard é ensaísta, foi professor de estética no Departamento de Filosofia da USP. Dirigiu diversos organismos culturais, entre os quais o Centre Culturel Franco-Nigérien, de Niamey, a Maison Descartes, em Amsterdã, o Institut Français d’Amérique Latine, no México, a Association Dialogue Entre Les Cultures, em Paris. Foi Diretor cultural do Museu do Louvre, de 1987 a 2002.