DEPOIMENTO DE JORGE COLI (FRAGMENTO)

Gravado em maio de 2011 pela TAL - Televisión América Latina

Denise trabalha como se fosse uma alquimista, mas uma alquimista que não utiliza processos físicos de transformação. São processos de inspiração, processos mentais, processos intuitivos. Essa alquimia espiritual, mental, parece-me resumir o conjunto de obras que nós temos aqui. Elas tendem para a necessidade de uma busca de sentidos, que talvez seja o elemento mais critico da nossa civilização, que se reduziu a comportamentos imediatos e mecânicos e que perde o poder de pensar, de meditar, de se interrogar sobre as coisas mais misteriosas. É uma porta, uma abertura. E me parece ser esse o papel do artista.

Na exposição há uma sugestão, em primeiro lugar, da idéia de decifração. Essa idéia é muito forte e ela aparece na concepção das pedras que se transformam em livros (série Quartzografia) para exibir outras pedras em situações complexas, diversas, delicadas, estimulantes, misteriosas. É melhor inclusive nem tentar explicar muito em detalhes e deixar que flua esse princípio de um mistério contido num livro de pedras, que eu portanto não posso virar as páginas e ler, mas que me convida a decifração.

Existem outros elementos que estarão presentes. A transformação da pedra nessas marcas,nesses cilindros (série Tablets da Terra) que imprimem sobre a argila sinais evocando processos arcaicos de mineralização, fósseis, coisas desse tipo, e que são, de algum modo,fabricações artificiais, mas que remetem sempre a idéia da pedra primordial.

 

Joege Coli, formado em História da Arte e Arqueologia (graduação e mestrado) e em História do Cinema (graduação) na Universidade de Provença (Aix-Marseille I, França), doutorado em Estética pela USP, livre-docência e titulação em História da Arte e da Cultura pela Unicamp. Foi colaborador do jornal Le Monde, traduziu para o francês Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos e Os sertões de Euclides da Cunha, em colaboração com Antoine Seel. Lecionou na Universidade de Provence, Montpellier e Toulouse. Foi professor convidado nas universidades de Princeton (USA), Paris I (Panthéon-Sorbonne)(França), Osaka (Japão) e pesquisador da New York University (USA). Trabalha sobre os séculos XIX e XX. Entre seus livros estão: Música Final- ed. Unicamp; Ponto de fuga (Perspectiva); L'Atelier de Courbet (ed. Hazan, Paris); O corpo da liberdade (CosacNaify). Recebeu diversos prêmios, entre eles o "Florestan Fernandes" (CAPES), melhor orientador de tese em Ciências Humanas (2005). Foi Secretário da Cultura da cidade de Campinas. É o atual diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.