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ARTE, HISTÓRIA E ARQUEOLOGIA

ENSAIO DE MANUELA MENA

 

Neste conto, o narrador encontra o instante perfeito, no tempo e no espaço, em que todos os lugares do mundo podem ser vistos no mesmo momento, sem confusão, sob todos os ângulos, e, ainda assim, em perfeita existência simultânea". Jorge Luis Borges, El Aleph

 

O mito do labirinto está instalado no fundo na natureza humana.

No início dos tempos, tendo já perdido a capacidade instintiva de rastrear os caminhos da natureza e de enfrentar seus perigos, a humanidade criou o arquétipo do labirinto, que ressurge nas lendas mitológicas e nos rituais religiosos de numerosas culturas primitivas por todas as extensões e profundezas do mundo. Reflete o medo ancestral e a desorientação vivida pelo ser humano ao se deparar com uma natureza hostil, e, como ser racional, o medo fundamental da própria vida.

Em cada cultura o labirinto se compõe de um espaço perfeitamente definido, de geometria calculada, porém ilusório, tanto por sua miríade de possibilidades quanto pela aparência de cada um de seus constituintes. O labirinto recria a infinita variedade de florestas em sua monótona correspondência, o emaranhado das trilhas nas montanhas, a sinuosidade do desconhecido, as estrelas no firmamento, que tanto podem guiar como desviar o navegador, e nas quais a humanidade encontrou, no entanto, sua ordem absoluta imbricada no labirinto das constelações.

O labirinto é também, e talvez acima de tudo, o mais perfeito símile da vida, com suas possibilidades, seus riscos e sua ordem sutil, porém íntima, com seu caráter aleatório para cuja condução o ser humano conta com raros e limitados fios do novelo de Ariadne.

O labirinto, ao contrário da natureza, ou da vida, se fecha em si mesmo, é superável, é construído pela humanidade como um teatro do mundo, e desvenda a solução no seu centro: o esquema para revelar o tesouro e a passagem para a liberdade.

Na cultura cretense, a idéia do labirinto foi posteriormente acompanhada da idéia do animal fantástico, do minotauro, metade homem, metade touro, que devorava todos aqueles que não conseguiam encontrar seu caminho e se perdiam em trilhas sinuosas. No entanto, este monstro selvagem habitava um espaço de arquitetura harmoniosa, no qual os blocos de rocha colossais, trabalhados e esculpidos com precisão matemática, respondiam a uma geometria calculada.

Murais altos, feitos de pedras perfeitamente compostas, seguiam o ritmo mutável e a ordem estabelecida pelo arquiteto criador.

Praticamente inalterada, esta ordem chegou ao mundo medieval, inclusive aos labirintos das catedrais francesas e aos pisos de mosaico das catedrais de Chartres, Rheims e Auxerre. Neste último, por volta do início do século XVI, no dia da Ascensão de Cristo, os padres ainda mantinham a dança ritualística, vestindo-se de branco e atravessando o labirinto de uma parte a outra; e os peregrinos, cuja passagem para a Terra Sagrada foi fechada no século XII, usavam esses labirintos para fazer sua peregrinação, calejando as mãos na aspereza dos caminhos de sua jornada simulada. Da mesma forma, pequenos labirintos moldavam miniaturas de manuscritos feitos de pedra e mosaico, ou miniaturas de pinturas, cada uma delas desenvolvida seguindo sofisticada geometria de círculos concêntricos, formas em quadrado, em cruz, ou então oscilando entre segmentos longos e curtos, alternando espaços vazios; contudo, sua realidade interna consistia de um espaço contínuo, apreciado como tal apenas pelos eruditos em sua ordem interna, conhecendo-os como uma realidade única, como uma linha contínua, ininterrupta – uma reflexão perfeita do universo. A ordem ritualística, em uníssono com a convicção religiosa, constitui a essência da arte e da arquitetura no mundo ocidental.

Além disso, o que mais podem ser as cidades, senão labirintos de extrema complexidade? Algumas cidades, como as do Renascimento, determinadas e concebidas desde sua fundação como labirintos, seguiam uma ordem interna estabelecida por seus criadores, inscrita em formas geométricas de absoluta perfeição. Muitas outras foram construídas pelo acúmulo de elementos, fundindo anos e séculos, entrelaçando ruas e praças por trás dos muros de proteção que circundavam seus segredos.

Assim as cidades chegaram até nossos tempos. Altos blocos de pedras e cristal refletindo o sol e as luzes da cidade, e também a si mesmos – ah! como é ilusório o labirinto! Avenidas que se cruzam e por onde os homens de nosso tempo pensam, alguns como Teseus modernos, que da mesma forma que Júpiter são transportados por uma águia no vôo de helicópteros, encontrando novos caminhos por não conhecerem as passagens misteriosas ou quais fios tecnológicos do novelo de Ariadne seguir.

Na civilização oriental, I Ching – uma forma de filosofia milenar – é também um tipo de labirinto mental, de rica variedade e liberdade extraordinária. Os pequenos segmentos, neste caso de natureza gráfica, também se alternam com os espaços vazios, cada um buscando as infinitas possibilidades da geometria. Este labirinto de idéias está profundamente enraizado na eterna casualidade da vida, em seu fluxo infinito, onde todas as possibilidades se fundem, se agregam e se desagregam. A liberdade e a disciplina incorporam-se ao I Ching para as respostas às questões e aos problemas dos homens, mas também para servir de recurso à meditação, ou impulso criativo para alguns, como a música do compositor norte-americano John Cage.

A teoria aleatória da vida atinge sua expressão máxima nesta forma de sabedoria oriental, nestes ideogramas que se agregam de acordo com a situação, encapsulando idéias sobre a vida e sobre a cultura oriental.

A América é o eixo entre dois mundos opostos: o oriental e o ocidental. Este grande continente tem uma localização geológica sobre um eixo vertical curvilíneo maravilhoso, típico e único a poucas formas naturais, compreendido como um pivô entre grandes massas continentais formadas pela Europa ao norte, África ao sul, e Ásia. No entanto, historicamente a América também foi, no início da humanidade, o eixo-pivô entre as culturas do Oriente e do Ocidente. Os povos orientais e ocidentais evoluíram lá, durante milhares de anos, como autóctones; em outras palavras, isolados em seu imenso continente buscavam a vida e a liberdade, levando consigo idéias e mitos primígenos, criando culturas integradas à natureza. Essas culturas formaram uma sabedoria particular e única, que nem o Oriente e nem o Ocidente desenvolveram em toda sua história, alcançando a sofisticação poética e lógica de povos como os caldeus e egípcios; todas elas – conforme revelado em seus mitos – “à espera” de um reencontro com estes povos com quem haviam rompido no início dos tempos.

 

“Preparem-se, irmãos, pois o gêmeo branco desceu dos céus, e castrará o sol, trazendo com ele a noite, a tristeza e o peso da dor...”

(Chilam Balam de Chumayel, Livro dos Maias)

 

Foi nesse choque inicial do século XVI, seguido por ondas de conquistadores e colonizadores, traumáticas e ao mesmo tempo enriquecedoras, que a América de nossos tempos teve sua origem.

A América, em sua vastidão e em sua pluralidade cultural, tornou-se, hoje, um eixo histórico inquestionável, e tanto o Norte quanto o Sul do continente fundiram-se à imensa fonte vital das variadas e complexas culturas africanas, hoje uma parte essencial da América moderna.

Nada seria mais apropriado para representar a pluralidade da América, não apenas suas nações, mas também a profunda poeticidade de suas múltiplas culturas, as autóctones e as incorporadas ao longo dos séculos, do que os blocos de granito criados por Denise Milan e Ary Rodrigo Perez. Como um jardim zen, de pedras, a obra Americas’ Courtyard, exposta em Chicago, é um lugar de meditação para o transeunte que pára diante dela, se reclina sobre estes blocos – grandes, porém acolhedores – de granito, basalto e mármore, cada um em uma tonalidade diferente e própria, com tamanho e polimento perfeitos, sobre os quais as mãos podem repousar, acariciar e, apesar da frieza intrínseca da pedra, sentir o calor que sentimos ser nosso próprio.

Em uma das disposições possíveis, em círculos concêntricos, a estrutura conduz o observador da obra Americas’ Courtyard, pela forma antiga e semelhante a um labirinto, até seu centro. Do alto, elemento comum e natural, para o homem de nossa cultura moderna e futura, esta grande estrutura arquitetônica torna-se agora um novo marco em Chicago. Passa a ser o ponto de referência por sua clareza estrutural, pelo número e pela disposição de seus elementos e pela variedade de cores.

Para os espectadores que se aproximam desta estrutura do alto para o solo ou vice-versa, estas formas misteriosas e ancestrais deixarão de ser um enigma, ou um labirinto, para ser um verdadeiro I Ching: um lugar de meditação, uma resposta para o enigma americano.

Os criadores desta escultura, Denise Milan e Ary Rodrigo Perez,
a definem como uma “arena de pedras”, e acrescentam:

Através dela renasce uma nova América, com paisagens esculpidas em blocos de granito que se encaixam perfeitamente em círculos concêntricos. São como peças de um jogo que podem ser reunidas, separadas, isoladas, empilhadas e isoladas, compondo uma estrutura móvel, cuja disposição é decidida pelos jogadores. É um jogo que dá aos participantes a oportunidade de brincar, de se encontrar, de representar sua realidade, declamar, sonhar, em resumo, transformar ações simples da vida cotidiana em rituais. É a metáfora de uma América onde diferentes países podem conviver na harmonia gerada pela sabedoria inerente à matéria e à sua ordem intrínseca.

Esta harmonia antecede a introdução de elementos de desintegração pela civilização. Esta sabedoria, ao mesmo tempo que reconhece as fronteiras enquanto entidades individuais, unifica-as ao organizá-las seguindo os valores ditados por uma ordem primordial do planeta, e não por valores econômicos e estratificadores.

Em sua obra, o desejo dos artistas foi captar não apenas o caráter geológico do continente, mas o advento do homem a este continente, a busca por culturas sucessivas e diversas, a disparidade entre as etnicidades e suas múltiplas vivências da experiência religiosa.

A religião e a etnicidade da América são as mais diversas no mundo todo:

 

Em tal contexto, um instante atemporal pode incorporar manifestações étnicas, religiosas e culturais. É um momento em que o homem reconhece a si próprio como parte integrante da terra e da natureza. Na obra Americas’ Courtyard a alma da terra fala.
As diferenças se manifestam, porém sem se mutilarem – são partes ativas de um processo mais amplo, do qual os jogadores também participam.

 

O granito abriga, em sua estrutura interna, a poesia da unidade na disparidade, como a própria América, e continuam seus autores:

A trajetória proposta consiste de círculos que nos conduzem a um núcleo de mármore branco, o centro móvel do continente. O quartzo, um mineral presente em todos os granitos, constitui um foco natural por sua organização interna e suas propriedades agregadoras.

O quartzo sintetiza a sabedoria que prevalece na matéria. O coração branco evoca a integração de todas as diferenças.

No entanto, esta grande estrutura arquitetônica não é um conjunto inerte, solidificado, imobilizado pela cristalização de seus elementos. Sua organização permite movimento para que a obra seja dinâmica, para a busca individual da forma apropriada, o que, sem dúvida, a torna muito diferente de todo e qualquer monumento antigo ou moderno – nem mesmo seu movimento acidental lembra a idéia dos móbiles de Calder. Denise Milan e Ary Rodrigo Perez explicam:

 

De forma análoga ao processo bipolar do cristal de quartzo, a roda inicialmente proposta para esta América, que consistia de círculos em direção a um centro em sua busca por harmonias diversas, pode ser removida, seja para atrair ou afastar os demais componentes, gerando muitas combinações.

 

Os seres humanos são o ímã dessa estrutura e podem influenciar o curso dos acontecimentos e o movimento das partes nesse quebra-cabeças.

Quais as circunstâncias que determinam o movimento e as alterações desses blocos de pedra? O que os faz mudar de labirinto a um teatro I Ching? Tais indagações terão que ser respondidas não apenas pelos próprios cidadãos de Chicago, mas também pelos das outras cidades da América, pois o uso histórico da rocha pelo homem, especialmente do granito, é tradicionalmente estático. Tem sido uma busca constante, em nossos dias, encontrar a permanência do tempo tanto no uso de pedras como o granito e o mármore, como de sua beleza sólida que parece abrigar o vigor eterno, que corresponde à essência de nosso planeta Terra.

Por causa da fluidez do ser humano, sua estrutura somática frágil, construída com poucos minerais, cálcio e água, desde os tempos primordiais a humanidade tem buscado nas pedras os caminhos para traçar sua memória e registrar sua existência. O homem talvez sinta profundo pesar por não ser o eterno cristal de quartzo a água de seu corpo. Menires eretos em granito e outras pedras também marcaram o início dos desenvolvimentos históricos humanos. Eram elementos mágicos inicialmente investidos dos poderes divinos presentes em todas as culturas primitivas. Os homens dançavam ao redor dessas estruturas, celebrando seus rituais e fazendo oferendas, unindo-se a elas de determinadas formas – em arcos e círculos –, e seu significado ainda é procurado no movimento dos corpos celestes e nos ciclos lunares, como no poderoso monumento druida em Stonehenge, o mais perfeito exemplo daqueles cuja própria natureza manteve sua sobrevivência até os dias de hoje. No entanto, essas rochas amorfas/ estes deuses de culturas primitivas deram origem aos belíssimos e perfeitos deuses de pedra do mundo grego.

Além do mais, os grandes blocos de granito consolidaram uma outra grande civilização antiga: a egípcia – a primeira sociedade a usar o granito em suas construções e esculturas, tendo descoberto um sistema de talhe, entalhe e polimento até hoje sem igual nas culturas que se sucederam. Uma ciência geométrica e matemática sofisticada permitiu que os egípcios subsistissem e fossem reconhecidos pelas sociedades que se seguiam. Eles também usavam grandes blocos de rochas em suas pirâmides, utilizando, nesses casos, um outro tipo das mais belas pedras em nosso planeta – o calcário –, trabalhado de maneira perfeita em dimensões calculadas. Esta pedra lhes permitia atingir grandes alturas em forma piramidal, encerrando o segredo da morte e da ressurreição, e parecia fazer eco aos cristais de quartzo minúsculos e extremamente belos em cristalização triangular.

O homem acreditava que sobre estas pedras os deuses descansavam seus pés quando desciam à terra. Por todo o mundo mediterrâneo e além de suas fronteiras, em determinadas pedras sagradas pode-se ver os “vestígios dos deuses” – pegadas que se acreditava serem dos deuses, o que reflete o eterno desejo humano de encontrar a divindade.

Foi sobre uma pedra, Pedro, que Jesus Cristo fundou sua igreja, e foi de uma pedra que Maomé subiu aos céus.

Em toda extensão e profundeza do mundo, o material sagrado das pedras tem sido utilizado em templos, praças, murais e fortalezas, tumbas, altares e labirintos, tronos e obeliscos, esculturas e pavimento para ruas, como algo intrínseco à natureza humana. As pedras são utilizadas para orações e rituais, para a representação de deuses e guerreiros, para celebrar e honrar os mortos, ou como elo com o mundo conhecido da Antigüidade – como Stonehenge, as pirâmides, a Grande Muralha da China, a Acrópole em Atenas, os antigos teatros gregos, as calçadas romanas e o Coliseu de Roma, os templos de Petra, na Jordânia, e o Templo de Salomão, dos quais apenas o Muro das Lamentações ainda existe, ou os numerosos cemitérios, grandes e pequenos, de todo o sempre.

A pedra tem sido matéria de idolatria durante todos esses milênios, um foco de atração para os peregrinos, como a pedra simples e negra de Meca, um eco tardio do lapis niger, ou das pedras negras originárias além deste nosso planeta. A matriz do Império Romano clássico reteve algumas dessas pedras; uma delas, particularmente miraculosa e dedicada ao culto da deusa Cibele. Plínio, o Velho, em seu livro Natural History – História Natural (Livro II, capítulo 59, p. 149) explica de maneira ingênua como elas caíram do centro do Sol, e como uma delas foi cultuada em Abidos e a outra em Cassandra.

Estas pedras eram, na verdade, meteoritos extraterrestres que os homens consideravam sagrados na Antigüidade, visto que, quem mais, além da entidade divina, poderia tê-las enviado das profundezas dos céus ou do próprio Sol? Pausanias, em suas Descriptions of Greece – Descrições da Grécia (Livro X, capítulo 24, p. 6) narra como uma pequena pedra foi mantida em Delfos, assim como a pedra, envolvida em fraldas, oferecida pela deusa Réia a Cronos quando ele lhe pediu que trouxesse o infante Zeus com a intenção de devorá-lo. Sobre esta pedra, segundo Pausanias, o povo de Delfos “derrama azeite diariamente, e a cada festividade, lã virgem. Há uma crença que a pedra foi dada a Crono em lugar da criança, e ele a vomitou”.

O homem praticamente não deixou nenhum traço de sua cultura quando não utilizou a pedra.

Na América isso também é verdade. As grandes civilizações antigas dos incas, astecas, zapotecas, maias, toltecas e outras podem ser contadas entre as que criaram os mais impressionantes exemplos do uso da pedra pela humanidade. E impressionam por sua beleza harmoniosa no talhe e no entalhe, indicando a compreensão irrepreensível do material, assim como sua monumentalidade e sua magnitude, sem terem sido explorados totalmente todos os prédios e todas as esculturas. Os palácios, os templos, e as pirâmides no México – Tenochtitlán, Teotihuacán, Tula, Mitla, Chichén Itza; na Guatemala – Tikal, e no Peru – o labirinto Nazca, Pisac, e os murais ciclopeanos de Saesayhuaman, Cuzco, são todos reflexos, para os que os ouvem, de exemplos de sublime magnificência, comparáveis às grandes obras da Antigüidade clássica:

 

“A cidade de Chichén Itzá é toda ela como... um livro de pedra.
Um livro quebrado, com páginas sobre o solo, enterrado no emaranhado da fuligem, manchado pela sujeira, destruído.”

(José Martí, 1889)

 

Em seguida, as cabeças colossais da Ilha de Páscoa.

No entanto, novas culturas fundadas sobre as antigas continuaram a utilizar a rocha até hoje por toda a extensão e as profundezas do continente americano. As grandes catedrais espanholas surgiram com força esplendorosa depois da chegada dos espanhóis no Novo Mundo. Em nosso século, as cabeças monumentais dos presidentes norte-americanos foram esculpidas na rocha do Monte Rushmore, no estado da Dakota do Sul; os belos prédios em Filadélfia, Nova York e Chicago assentam-se sobre poderosas fundações de granito, e o labirinto de nomes foi esculpido no mármore negro do Memorial à Guerra do Vietnã, em Washington, criado pelo arquiteto norte-americano de origem chinesa Maya Lin.

Da perspectiva européia, a América parece estar perfeitamente definida por uma forma geométrica simples e essencial.

O norte e o sul são dois triângulos perfeitos, como que em eco, e unidos pelo semicírculo das Antilhas. É um continente de formas delicadamente femininas: um torso delgado que lembra a curva harmoniosa da Vênus de Milo, com um braço levantado e perdido no gelo do pólo norte; a cintura fina e aquecida, com curvas indolentes, os amplos quadris da Amazônia e os pés juntos, dançando sobre o gelo da Antártica, como em leves piruetas de uma bailarina. No entanto, a América tem uma poderosíssima espinha dorsal, as Montanhas Rochosas e os Andes, como de um explorador e um guerreiro, ou um caçador, um mineiro ou um trabalhador braçal.

As pedras, as rochas e os minerais são um elemento de definição aos olhos dos europeus, mas também, na verdade, aos olhos dos homens e das mulheres da América. O continente adquire vida pelo seu trágico círculo de fogo que ameaça igualmente o norte e o sul.

Terremotos, falhas, fissuras e vulcões ligam a superfície da terra com uma clareza definitiva, com seu centro/núcleo ainda em ignição pelas grandes massas de quartzo flutuante, falam conosco sobre os tempos primordiais quando o homem ainda não vivia no nosso planeta.

As falhas no solo e as estruturas espetaculares existem na América com extraordinária regularidade. O Grand Canyon no Colorado, as cataratas de Niágara e de Iguaçu, os imensos rios e seus estuários, a Terra do Fogo, os desertos, tudo isso atesta uma natureza poderosa, amiga e vilã, forte e definitiva para a Terra – uma natureza que mantém o equilíbrio essencial à vida e fornece o oxigênio vital da vastidão da floresta amazônica.

Para os habitantes de outros continentes, a América proporciona aventura, vida, liberdade, trabalho e riqueza, mas, acima de tudo, esperança, por vezes escravidão, e as guerras pela independência ao norte e ao sul que despedaçaram os elos concêntricos de suas correntes. O Eldorado é sinônimo de esperança; no entanto, na América o homem encontrou ouro, prata, minerais, pedras preciosas, esmeraldas, rubis e diamantes.

Foi a partir da América que o homem foi capaz de alcançar as rochas da Lua e além dela.

Denise Milan é uma mulher da América. Brasileira, seu sangue é uma mistura de portugueses, espanhóis e libaneses. Uma mistura fértil, como todas as misturas, e simbólica em sua capacidade de encontrar a linguagem essencial de seu continente nativo e de seu país de origem. Mensageira do sul no norte, Denise traz com ela o espírito da Amazônia aos Grandes Lagos, a mensagem da natureza à vida urbana, pois, na cidade, a natureza é concebida como se fosse sempre verde, quando pode também ser densa em rochas e minerais, com as cores suaves e variadas do granito. Americas’ Courtyard torna-se um símbolo da natureza neste denso ambiente urbano de Chicago, pois as pedras – quartzo ou basalto – são a expressão artística mais profunda e mais original de Denise Milan. Seu olhar de artista, como o de uma maga, penetra as pedras e encontra sua estrutura interna, amando-as com força poética e ritualística.

Suas mãos pequenas, morenas e fortes parecem capazes de esculpir estes enormes blocos de granito sozinhas, guiadas por sua energia vibrante, convencendo as pedras grandes e rígidas a se tornarem maleáveis, a girarem sobre um eixo, para se unirem e se separarem em uma dança da Antigüidade que evoca os rituais dos indígenas da América do Norte e da América do Sul, ou das tribos africanas, ou então as delicadas danças da China e do Japão. Danças circulares onde as bailarinas abrem e fecham seus passos em um círculo, pela guerra e pela paz, pelo amor e pelo trabalho.

É uma dança de pedras que serve à união das pessoas com suas idéias, com sua etnicidade, sua religião e seus países de origem ou de adoção.

O granito é o material, o quartzo é o elemento unificador, a cor é a diversidade que capta o olhar do homem, a forma é mutável nos limites do seus segmentos circulares que se abrem e se fecham, se alongam ou se transformam em uma espiral infinita de aspirações humanas.

Ary Rodrigo Perez é o co-autor desta grande escultura /arquitetura, e, como brasileiro, um integrador de experiências culturais. Seu espírito rigoroso, baseado na geometria, proporcionou que esta grande estrutura de bloco de pedra que é Americas’ Courtyard pudesse ser transportada e modificada pelos homens sem perder sua identidade. O desenho das pedras, suas dimensões exatas, a curvatura de cada uma das peças é resultado de um jogo geométrico preciso.

Ary explica que sua contribuição decisiva à obra foi transformar estes enormes blocos em letras do alfabeto, de forma que em sua mobilidade pudessem configurar uma linguagem que não necessita de tradução e que continuará a ser, como todas as línguas, um veículo de união:

Por meio do conceito integrador, dinâmico e polifórmico (multietnicidade) Americas’ Courtyard pode ser definido como forma estrutural básica determinada pelos trabalhos anteriormente realizados com Denise Milan. A poliformia necessária para adaptar-se às diversas necessidades urbanas sugeriu um alfabeto modulado capaz de estruturar discursos diversos, bem como substanciar muitos outros.
A precisão geométrica de cada letra do alfabeto, construída com grandes blocos de pedra, foi possível graças ao programa CAD, que garantiu a possibilidade de alternância entre as várias formas, algumas geometricamente caóticas, e outras bem definidas. O intercâmbio entre as pedras e a possibilidade de movimento se devem à construção industrializada e à arquitetura modular.

 

A este discurso puramente construtivo, que demonstra sua visão desta obra como uma linguagem integradora, o artista acrescenta a essência da estrutura das pedras, de suas proporções e de sua disposição.

 

O material que amalgama este conceito poderia, assim, ser o granito, encontrado em todos os países, e que melhor se adapta à nossa proposta geral, tanto em termos de durabilidade como da integridade de suas peças, garantindo seu transporte e mobilidade.
A base matemática do projeto se contrapõe à concepção artesanal das partes, utilizando uma tecnologia milenar para sua produção.
De certa forma, o arcaico e o contemporâneo se uniram no prazer lúdico das possíveis montagens no contexto urbano: arcos tombados, multiarcos concêntricos que podem unir as ansiedades mutáveis da civilização urbana.

 

O granito, a rocha ígnea para o quartzo, a mica, o feldspato e o cálcio, é a rocha mais encontrada na superfície da terra. Produzida há bilhões de anos, chegou até nossos dias em massas rochosas cujo poder da beleza sempre causou grande impacto. Precisamente na América encontramos as mais variadas formas de granito do mundo, pois nos Estados Unidos e no Brasil estão os mais belos exemplos da virtude de sua gradação de cores.

Desde a Antigüidade, a dureza do granito tem impossibilitado seu uso corrente como elemento decorativo, pois dificulta o trabalho manual para a decoração meticulosa ou para perfeições de detalhes.

No entanto, o granito encontra seu idioma perfeito nos enormes blocos na obra Americas’ Courtyard de Denise e Ary, em seus aspectos rugosos, “paisagísticos”.

Americas’ Courtyard utiliza o granito em talhes perfeitos de precisão egípcia, inca ou asteca. Emerge naturalmente das formas ciclópeas das antigas culturas orientais e ocidentais. Seus círculos concêntricos são o eco do labirinto primordial, um labirinto que auxilia o homem a encontrar seu caminho no sentido da liberação dos espíritos do mal:

 

“Várias noções interligadas contribuirão para fazer do labirinto um dos símbolos míticos mais fecundos e mais significativos: a noção de um lugar sagrado existindo em seu centro, um talismã, ou qualquer outro objeto capaz de devolver a saúde e a liberdade às pessoas; a presença de um herói ou de um santo, que, após penitência ou redenção ritualística envolvendo um período de isolamento, penetra o labirinto ou o castelo encantado – a fim de, por vezes, fundar, salvar ou redimir uma cidade.”

(Octavio Paz, 1984)

 

Os círculos concêntricos em Americas’ Courtyard são a memória inconsciente do monumento funerário, como é Stonehenge, cujas rochas e arcos alinhados aos movimentos das estrelas e aos ciclos lunares estabeleciam um elo com os mortos, para quem os rituais serviam. Ele também aproxima a distribuição harmônica do observatório na cidade maia de Chichén Itzá, cuja disposição foi concebida para a observação do sol e do solstício de verão.

O homem terá sempre a aspiração de compreender o Universo que o abriga, e Americas’ Courtyard expõe esta dimensão humana, cujo pequeno progresso em nossos dias origina-se fundamentalmente na América. Também comemora a arena romana, o Coliseu, onde os homens se reuniam e se sentavam em círculos concêntricos em diferentes níveis para assistir aos jogos de vida e de morte.

É ainda o eco dos teatros gregos e romanos, a maior forma de cultura e de civilização. Americas’ Courtyard pensa a união entre os indivíduos da América e suas nações. Envolvida na estrutura funcional de inequívoca beleza e energia, das mais antigas minas conhecidas, como a da Espanha, a obra nos lembra a associação voluntária do pátio com o telúrico, com o essencial à Terra e ao continente americano. É pública como a ágora, mas também íntima como o pátio árabe, em cujo coração líqüido observa a harmonia da água da fonte árabe nos limites do palácio ou do interior do convento, como em Granada ou Sevilha. É a forma que ecoa no interior da consciência humana, que liga a humanidade ao seu passado, que afaga, que reúne pares para o jogo, a diversão, o diálogo, como uma ágora moderna, a forma e a matéria colocando a humanidade em contato com a terra mãe e protetora. É a forma como Platão concebeu o mundo em seu Timeu.

 

Manuela Mena, curadora sênior de pintura do século XVIII e Goya no Museu do Prado. Escreve sobre a arte espanhola e italiana dos séculos XVII e XVIII, e desde 1996 dedica-se especialmente a Goya, publicações e exposições sobre sua figura. Atualmente trabalha como parte da equipe que irá desenvolver o catálogo raisonné dos desenhos do Goya.