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PÁTIO DAS AMÉRICAS: CRISTASLIZAÇÃO A SONHAR

ENSAIO DE MICHAEL BRENSON

 

Arena, capela, playground e teatro, "Pátio das Américas" é uma obra de arte pública que recepciona pessoas de todas as gerações, desde crianças que querem correr sobre as fileiras de rochas ou entre elas, a adultos atraídos para um banho de sol ou momentos de meditação. Um campo magnético para os que estão a passeio ou a trabalho, para dançarinos e monges, para músicos e padres. Esta escultura arquitetônica, de 10 metros de diâmetro na sua encarnação em Chicago, sugere a compatibilidade potencial de maneiras imensamente diferentes de pensar e de ser, incluindo universos culturais que continuam a girar em torno de antigos rituais e universos de alta tecnologia que, em muitos momentos, apesar de destruírem o passado, podem contribuir para sua preservação.

Ao mesmo tempo uma obra genérica em sua linguagem escultural e tão específica em seu apelo a ponto de ser quase universal, "Pátio das Américas" tem raízes culturais, arqueológicas e historico-políticas brasileiras. Os artistas — uma parceria do casal Denise Milan e Ary R. Perez — são brasileiros, residentes em São Paulo. Denise Milan é uma artista dedicada à criação e re-imaginação da arte pública. Os eventos internacionais sobre arte pública por ela organizados em São Paulo juntamente com o SESC – Serviço Social do Comércio – em 1995 e 1996 tiveram como objetivo analisar a efetiva capacidade de a arte pública refletir os problemas do caos e da violência urbanos, e também as questões referentes à tradução e transformação culturais. Ary Perez é um engenheiro e arquiteto, com experiência em teatro e interessado em diferentes públicos, inclusive crianças. Conhecido pelo seu conhecimento tecnológico, projetou "Pátio das Américas" e desenvolveu suas permutações.

A busca de Denise Milan e Ary Perez por uma harmonia que ceda espaço ao inesperado, de uma estrutura lógica e imediatamente acessível que estimule a intuição e a improvisação não seria tão intensa sem a profunda experiência da condição de cidadãos de segunda classe do Terceiro Mundo e da contínua exploração do Brasil e das Américas do Sul pela Europa Ocidental e pelos Estados Unidos. Ou então, sem a dolorosa conscientização dos conflitos amargos e divisionistas dentro do próprio Brasil – com sua miríade de culturas e tradições, coexistindo na imensidão geográfica das mais variadas noções de tempo e espaço.

Grandes indagações permeiam "Pátio das Américas". Como podem antigos caminhos de celebração e reverência, que segundo Denise e Ary são essenciais à vitalidade e identidade do Brasil, sobreviver em um país e em um mundo dominados pela especulação e pela velocidade, e pela crença de um elo irresistível entre a modernidade, o progresso tecnológico e o poder político-econômico? Existe uma criatividade especificamente brasileira? Pode ela ser o fator a moldar as maneiras pelas quais outros países pensam e imaginam? Poderá, pelo menos, estimular as pessoas a valorizarem culturas mais antigas e visões alternativas de circulação e tempo?

O Brasil proporciona a Denise e a Ary a substância física e também a inspiração para o sonho das Américas. As formas com 60 tipos de rochas que constituem o Pátio das Américas (America´s Courtyard), foram reunidas de todos os cantos do país. Cinqüenta e cinco são de granito, um tipo de rocha encontrado praticamente em todo lugar. O granito é encontrado em tantas cores e tantas texturas que poderia simbolizar a diversidade étnica e racial do Brasil e do mundo. Uma fatia é de basalto, ou lava, que traz à obra a memória dos processos vulcânicos que formaram a terra. Os espaços, ou vazios, entre as quatro rochas de mármore no centro da obra, também sugerem os processos geológicos de emergência e separação. "Pátio das Américas" pergunta: por que não re-pensar e re-sonhar o mito da criação das Américas em termos das culturas e da história do Brasil, ou das Américas do Sul?

Exceto o mármore, todas as outras rochas estão dispostas em três fileiras, em altura descendente em direção ao centro, o que confere à obra a funcionalidade de um teatro, onde todos têm visão ao que é apresentado As quatro rochas de mármore são mais altas que as demais. O branco é a cor resultante da mistura de todas as cores da luz: portanto, é, para Denise e Ary, a cor da integração. O coração de mármore deste corpo escultural, o centro, ao qual todos, em algum momento, pertencem, sugere um lugar de performance, de idolatria, e de sacrifício, de performance e de idolatria, e ao mesmo tempo de sacrifício, de uma pureza espiritual que não pode se dissociar das paixões e crueldades do coração humano. O palco-altar de Denise Milan, este coração-altar, sugere que a capacidade humana para a reverência e o mistério está inevitavelmente ligada a uma força dos homens e da natureza que é tão essencial e tão profunda que jamais poderá ser erradicada ou domesticada.

Neste final de século e de milênio, em meio à revolução digital, "Pátio das Américas" coloca uma questão recorrente: como os brasileiros, e todos os outros povos, devem ver a energia, ou pressão, ou força, do coração humano? Relembra-nos da importância de ver esta energia e esta pressão como indispensáveis a qualquer sofisticação, criatividade e espiritualidade que possamos ter. Implica que o primitivismo verdadeiro resulta da repressão desta energia e desta pressão, ou da recusa em conferir-lhes o tipo de vitalidade criativa que Denise Milan vê tão abundante nas tradições artísticas e culturais brasileiras.

A obra nos questiona se realmente ainda não nos conscientizamos que as pessoas que consideram civilização como alternativa para primitivismo, ou progresso como antítese de retrocesso, são as que detêm, em geral, neste século, a responsabilidade ou cumplicidade pela catástrofe da violência.

Não apenas no espírito ritualístico de "Pátio das Américas", mas também na melodia das rochas, os artistas apresentam argumentos para a importância das raízes deste Brasil agora ameaçado. Muitas destas rochas foram cortadas por Aparecido dos Santos, entalhador de uma pedreira situada a cerca de uma hora da cidade de São Paulo. Denise o descreve como um homem "que vive em sua pedreira como se fosse seu santuário". Para ela e para Ary, ele representa os brasileiros cujas ligações com antigos costumes faz deles depositários de uma sabedoria incorporada. "Não há como outras pessoas absorverem este tipo de sabedoria", ela declara.

Ary desenvolveu um trabalho nas rochas para torná-las táteis: a parte superior é polida de forma a estimular não apenas nos sentarmos e nos deitarmos nelas, mas também tocá-las. Parecem orgânicas. As outras superfícies são em geral mais irregulares, mais toscas. Em parte porque algumas parecem levemente protuberantes, até mesmo dilatadas, com a força da energia interna exercendo sua pressão. Mesmo quando as rochas estão dispostas uma ao lado das outras, a sensação é de espaço suficiente, ou de disparidade suficiente entre elas para que possam respirar individualmente. Assim, ao mesmo tempo em que cada uma delas é um membro de uma mesma família, de um mesmo alfabeto, cada uma guarda sua individualidade. Cada uma mantém sua integridade sem violar a integridade da outra. Apesar do peso dos blocos individuais, cada um deles, assim como a estrutura como um todo, comunica movimento. Nada na obra parece final. As rochas e a estrutura parecem ter vida, muito pelo que são mas também pelo que podem vir a ser em sua evolução.

A obra foi concebida para ser flexível. Em círculo, pode ter até 20 metros de diâmetro sem perder sua noção de escala. Porém, as rochas não devem necessariamente estar dispostas em círculo. Por exemplo, podem formar espirais sugerindo padrões geométricos em trabalhos de cerâmica ou paredes de templos antigos de muitos países. Esta flexibilidade orgânica, este conceito de partes móveis que podem ser organizadas em muitas formas, contribui para fazer desta obra uma homenagem à evolução e à continuidade, a concepção de uma realidade em constante evolução, esquivando-se de qualquer tentativa de enquadramento, mesmo em sua constância.

A reverência de Denise e Ary por um Brasil antigo se torna aparente em sua paixão pela riqueza dos cristais e minerais brasileiros. Sua obra em uma das paredes da estação Clínicas do metrô na cidade de São Paulo é um entalhe pouco maior que um corpo humano de porte médio, com centenas de cristais compostos em um leito que os abriga. "Pátio das Américas", assim como os cristais, parece emergir e em certo momento incorporar-se a uma ordem ao mesmo tempo elementar, rigorosa, e maravilhosa. Denise tem se questionado se os cristais, tão espetaculares no Brasil, constituem uma fonte de informação essencial sobre o solo e a natureza do país. Em "Pátio das Américas" tanto ela quanto seu marido se perguntam se estes cristais, aparentemente caóticos, até mesmo violentos em suas proeminências e seus grupamentos, porém constantemente forjando novos arranjos onde todas as partes de alguma forma se coadunam e se inter-relacionam, podem ser fonte de inspiração para sonhos de um futuro construtivo e purificador.

"Pátio das Américas" é, na verdade, uma obra romântica e radical. Foi concebida após anos de reflexão sobre os rituais brasileiros e sobre o solo e a natureza do Brasil, e ainda sobre a possibilidade da existência de uma essência brasileira. É, também, a tentativa de encontrar, na identidade brasileira, uma alternativa aos sistemas econômicos e políticos com suas bases no consumo e na exploração moral. "O capitalismo não sobreviverá", declara Denise. E então? Haverá um modelo melhor? Aqueles que buscam uma alternativa poderão aprender algo a respeito da paixão e da complexidade dos rituais brasileiros? A respeito do sincretismo característico do desenvolvimento do cristal? A respeito da maneira pela qual os cristais tornam inseparáveis o caos e a estrutura, a antigüidade e a liberdade?

 

Michael Brenson, crítico independente, curador e educador; PhD em história da arte na Universidade de John Hopkins. Escreveu por nove anos para Art in América e para o International Herald Tribune. 1982 a 1991 escreveu no The New York Times. Desde que deixou o Times, trabalhou extensamente em escultura moderna e contemporânea. Especialista e palestrante em arte pública e nos efeitos da crise no National Endownment for the Arts. Tem sido consultor para a Rockfeller Foundation; está no quadro editorial do Art Journal; crítico visitante da Universidade de Yale, da Universidade do Texas, e o Bard College’s Center para estudos curatoriais.