2014 – ENTREVISTA POR WENDY WOON

Entrevista com Denise Milan realizada em São Paulo, 22 de Fevereiro de 2013
por Wendy Woon

Wendy Woon é artista, professora e atua como educadora em museus, tendo mais de 30 anos de experiência em liderança e desenvolvimento de experiências inovadoras com arte, reconhecidas com diversos prêmios, para um amplo alcance de público, em museus, comunidades, e mundialmente por meio da Internet.Woon interessa-se pelo poder de transformação da arte na vida das pessoas, e o importante papel que artistas podem ter em trocas significativas com líderes de comunidades por meio de suas práticas artísticas. Ela é atualmente vice-diretora do departamento de Educação do Museu de Arte Moderna (MoMA), tendo trabalhado no Museu de Arte Contemporânea (MCA) de Chicago e lecionado na Universidade de Nova York (NYU) e na Escola do Instituto de Arte de Chicago (SAIC).

 

Breve introdução para contextualizar o projeto colaborativo “Espetáculo da Terra”
(Editores: N. Moniz, L. Ferreira)

 

FORMAÇÃO

WOON: Denise, me conte como você começou. Como descobriu que era artista?

MILAN: Eu não sabia que era arte. Fiz alguns desenhos quando tinha por volta de seis anos de idade. Meu pai olhou e disse que eram muito bons. Não sei se ele gostou dos desenhos porque me amava, mas seja como for isso me trouxe um sentimento de pertencimento.

WOON: Você teve uma formação artística?

MILAN: Não comecei nas artes visuais. Eu pensei que seria matemática, sempre gostei da abstração, mas acabei entrando na faculdade de economia; depois que terminei o curso fui estudar dança na Espanha, em 1979. Desenhar era desenhar no espaço: o corpo ocupando o espaço. Na Espanha tive a oportunidade de estudar os grandes artistas visuais e os grandes mestres da arte.

 

COLABORAÇÃO

WOON: Os trabalhos em parceria fizeram realmente parte do seu processo. Você fez vários trabalhos em parceria com Ary Perez, seu ex-marido. Gostaria que falasse um pouco sobre isso.

MILAN: Nós éramos recém-casados. Ary me via em casa trabalhando no processo de criação dos objetos tridimensionais. Eu não sabia como resolver a parte estrutural desses objetos, então ele começou me ajudando a encontrar uma solução. Um diálogo teve início, o trabalho tornou-se participativo. Tratava-se de encontrar a melhor solução para cada ideia. Não tenho todas as respostas. Algumas vezes as pessoas podem trazer suas contribuições. Minha primeira exposição foi de colagem e gostei muito de fazer parte de algo que já existia. Nós não criamos tudo, creio eu, muitas coisas já foram criadas antes e podemos, quando muito, participar dum grande ato de criação. Um trabalho de parceria nunca é fácil, traz algumas tensões. Às vezes você tem uma ideia e seu parceiro tem outra diferente. O interessante da parceria é como encontrar o melhor caminho de resolver o problema. Ary foi meu primeiro parceiro, o primeiro a colaborar em meu trabalho artístico, nós trabalhamos juntos por muitos anos.

WOON: E ele é engenheiro de formação?

MILAN: Ary se formou em engenharia civil. Ele trouxe conhecimentos de estrutura aos projetos e procurou soluções matemáticas para os mesmos. Eu partia sempre de um conceito, tinha a intuição de que esse conceito funcionaria, e em seguida ele projetava o que poderia dar certo. Era um trabalho conjunto. Eventualmente até nossos filhos participavam.

WOON: Ter filhos é um processo criativo em si mesmo, mas como eles enxergam e moldam seu trabalho também é interessante.

MILAN: Foi maravilhoso, eu não sabia que eles iriam contribuir tanto. Estava trabalhando na Ópera das Pedras e tendo algumas dificuldades. Não sou musicista. Para mim as pedras cantam. Eu me perguntava como poderia trabalhar com músicos, e meu filho Rodrigo - que conhece muito sobre música - me ajudou. Ele conhecia uma profissional que tinha uma voz extraordinária. Ele ficou responsável pela leitura. Eram duas vozes, a dele e a dela, e eu os dirigi pautada na minha interpretação da estrutura do átomo das pedras. Eles interpretaram a voz da pedra e me ajudaram a trazer essa dimensão para o meu trabalho. Manuela, minha filha, me ajudou a editar o libreto de modo que o enredo ganhasse mais foco. Eu estava sempre dirigindo, é claro, cuidando para que o trabalho se desenvolvesse dentro do que eu havia imaginado. Trazer a colaboração de pessoas mais jovens, meus filhos, no caso, foi incrível.

 

BRASIL COMO CONTEXTO E TEMA

WOON: Quero falar um pouco sobre o Brasil. Você cresceu aqui e gerações de sua família estiveram no Brasil. Que aspecto do seu trabalho traz ressonâncias do contexto brasileiro do qual você faz parte? E o que você sente que vai além desse contexto, que é mais universal?

MILAN: Acho importante entender o contexto histórico do Brasil. É importante começar na época dos descobrimentos com os viajantes europeus, pelos portugueses que aqui chegaram no século XVI. Eles imaginavam que aqui seria o paraíso. Os colonizadores, e depois os imigrantes, vieram em busca das Américas, do Eldorado. Meus avós são imigrantes, fizeram parte da diáspora libanesa. Eles vislumbravam um lugar melhor, um lugar onde a vida fosse mais de acordo com seus próprios sonhos. É assim que eu vejo o Brasil, um lugar de sonhos. O Brasil tem uma imensa riqueza de recursos naturais – fauna, flora, ouro e pedras preciosas. É um lugar de exuberância e não de exotismo. Estou falando da magnitude do seu potencial, mas em contraste há outros aspectos que precisam ser levados em conta: o extermínio da população indígena, a escravidão, o desmatamento e todas as práticas movidas pela cobiça. Esse outro lado também faz parte da mesma moeda. Para encontrar a cura você tem que mostrar as cicatrizes, partir daquilo que está potencialmente saudável, do que pode e deve ser preservado. É esse paraíso, essa exuberância a qual me refiro. Podemos olhar para dentro das estruturas da natureza. Precisamos aprender com as estruturas naturais do planeta em vez de tentar dominá-las. As mais belas pedras preciosas são encontradas no Brasil. Meu trabalho é aprender sobre suas geometrias, escutar o que a estrutura das pedras tem para nos ensinar.

WOON: A pedra azul é algo que desde o início a inspirou. Você pode falar da importância que ela tem para você e para o Brasil?

MILAN: A coloração azul das pedras, em muitas culturas, é entendida como o grau máximo de elevação da matéria. Para mim a pedra azul é a Terra. Quando os astronautas enxergaram o planeta Terra eles disseram: “é uma pedra azul !” Ter essa visão dela no universo, é compreender que somos parte de uma grande família, que existimos e estamos conectados pela própria Terra, nosso planeta. Todos nós partilhamos de uma mesma experiência, mas muitas vezes estamos cegos para isso. O que quer que aconteça nela, acontece para todos nós. Qualquer ação humana que afete a natureza, como o desmatamento, a mineração, a poluição dos rios, afeta o nosso equilíbrio como um todo.

WOON: E esta pedra azul é uma conexão entre o Brasil e a África. Você pode falar um pouco sobre isso?

MILAN: A pedra azul é encontrada na Bahia e na Nigeria, é chamada de Azul Real. Eu usei essa conexão em minha instalação Améfrica (2003). Isso nos remete aos tempos da Pangea, quando as placas tectônicas se moveram para então se separarem, formando dois grandes continentes. No entanto, quando se fala em África e Brasil, se fala da escravidão, da dominação das mentes e dos corpos, ou seja, é justamente aí que a ferida aparece. Nós temos que remontar ao tempo conhecido como Pangea, quando esses continentes eram unidos. A memória seria a de uma origem comum, e nesta não existiria o domínio dos homens sobre os homens. Eu sempre volto ao tempo onde todos compartilhávamos da mesma origem. O começo é o Big Bang, e nada sabemos antes disso. Desconhecemos nosso começo e nosso fim, e podemos partilhar essa experiência de não saber; não se trata de nossa identidade enquanto filhos, de pai e mãe, mas sim da identidade que remonta às origens planetárias, nossa origem cósmica e desconhecida. É um lugar onde podemos partilhar uma linguagem comum. O quartzo é para mim a metáfora de uma possibilidade comum, porque está presente em noventa por cento da terra, é parte dessa origem e lá está, em qualquer lugar que você vá, é uma estrutura que diz respeito a todos nós.

MILAN: Minha história com o quartzo começou com a exposição Garden of Light, no MoMA PS1, em Nova York; já nesta exposição eu falava do paraíso, desse mito tão presente na cultura brasileira. Naquela época Haroldo de Campos estava colaborando comigo no livro Cadumbra (1997), estávamos ambos trabalhando sobre o poema “A Ilha dos Abençoados”, do livro Finnicius Revém de James Joyce. Nós dois escrevemos poemas dialogando com uma ilha cristalina que eu havia construído, e para entrar nessa ilha imaginária eu vislumbrei uma chave invisível. Em seguida, alguns anos depois, na exposição Gênese no MASP comecei a trabalhar com grandes geodos e passei a estudar o processo geológico de formação dos cristais, sobretudo a formação cristalina do quartzo dentro do basalto. Foi nessa altura que ao ter consciência desse processo passei a usá-lo como uma metáfora. Foi aí que nasceu a idéia do Magma Celestial, ou seja, as pedras já não eram somente pedras em meu trabalho, elas se tornaram uma estrutura simbólica, uma estrutura ressoante de metáforas possíveis.

 

Umbigo da Terra, Denise Milan

Umbigo da Terra, 1997
Foto: Thomas Susemihl

 

 

Umbigo da Terra, Denise Milan

Identidades Vulcânicas, 1997
Foto: Thomas Susemihl

 

JOSEPH BEUYS E A ARTE COMO “PRÁTICA SOCIAL”

WOON: Nos últimos anos você tem trabalhado em um projeto também colaborativo. Você descreveu o que une as pessoas. Há muitos artistas hoje trabalhando no que é conhecido como “práticas sociais”, e nesse sentido o próprio processo artístico permite uma interação com outras pessoas e as transforma. A ideia é que a arte e o artista podem ter um impacto poderoso na vida das pessoas. Você mencionou ter sido bastante influenciada pelo trabalho de Joseph Beuys. Pode falar um pouco sobre Beuys e sobre esse projeto com as comunidades?

MILAN: Penso sobretudo na floresta, num dos trabalhos que Beuys fez na Alemanha. Ele instalou 3.000 pedras e sementes, fez decerto uma alusão ao reflorestamento. A natureza me inspira muito. É importante que os artistas olhem para os lugares onde a natureza está desaparecendo. Eles podem, através de seus trabalhos de arte, inspirar outras pessoas a resgatar a natureza, a trazer de volta a consciência de que elas mesmas são parte dela. Recentemente, através do projeto Espetáculo da Terra, que estamos fazendo com seis comunidades carentes em São Paulo comecei a perceber o que Beuys queria dizer com “energia social.” Nesse sentido percebo como o universo mitológico das pedras, suas origens e estruturas - o mito que eu criei - encontra de fato uma ressonância dentro das comunidades com as quais trabalho. Ajudar a revelar as conexões entre as vidas dessas pessoas e as metáforas presentes em meu trabalho foi a questão central do projeto.

 

AS PEDRAS: NATUREZA E METÁFORA

WOON: Você é inspirada pelo quartzo e seus processos, pela vida e estrutura do quartzo. Não é apenas um belo objeto, você sente haver nele lições de vida e ensinamentos. O que podemos aprender ao olhar para as pedras?

MILAN: A escultura Entes (2005, Sesc Vila Mariana-SP) é um exemplo perfeito. Ela tem a forma de um ovo. Então você tem a ideia de um começo. O ovo é também o símbolo mais perfeito do Genesis, pois significa transformação. Quando você olha dentro da formação do geodo, cuja forma se parece com a do ovo, vê muitas camadas de transformação. Vamos seguir o caminho de transformação da pedra e voltar 130 milhões de anos atrás, quando o supercontinente Gondwana começou a se dividir e quando o Oceano Atlântico foi formado. Isso só aconteceu por causa das erupções vulcânicas, que fez aflorar o magma de dentro do planeta e, com ele, os minerais das camadas internas do planeta. Sendo as temperaturas extremamente altas, cerca de 3100oF, bolhas de ar se formaram, como se o magma estivesse respirando...Ambos, o basalto e o quartzo têm sua origem na lava vulcânica, mas por causa de naturezas diferentes acabam se separando. Quando o quartzo penetra a bolha no magma vulcânico ele começa a se cristalizar e a formar, o mais rápido possível, uma espécie de casca protetora que funciona como barreira para que o basalto não penetre no mesmo espaço. É sob essa casca, dentro da bolha, que o quartzo vai começar seu processo, irá se organizar e tornar visível sua estrutura. No primeiro momento de solidificação não há estrutura, apenas um estado caótico. É a casca dessa pedra, ainda em estado de caos, mas já com as primeiras manifestações de uma certa ordem. Depois dessa primeira camada vem a ágata, a camada interna, onde o cristal de quartzo começa a se estruturar; e depois, somente na terceira camada, essa estrutura se torna visível. Em resumo, na camada exterior temos sempre o caos, e depois, por um processo de transformação, essa camada interna, a ágata, onde a estrutura da matéria e sua visibilidade estão sendo definidas. Podemos falar de uma pré-ordem que antecede a estrutura. É uma estrutura que podemos contemplar e aprender a ver, algo que estava lá no período que remonta ao nascimento da Terra. É uma estrutura que continua a se desenvolver e vai seguir seu caminho por muito tempo ainda. Olhar esse processo, desde a não-estrutura até a estrutura que se forma e se torna visível, passando por formas invisíveis, é entender, de certo modo, qualquer projeto ou circunstância da vida na qual nos envolvemos. Isso é o “maravilhoso”. Como num processo criativo, quando você primeiro conhece e participa de uma equipe ou de um grupo, cada um tem uma ideia a respeito, e nunca sabemos como as elas irão se manifestar e funcionar.

 

Umbigo da Terra, Denise Milan

Entes, 2005
Foto: Levi Mendes Júnior

 

geodo

geodo

Geodos
Fotos: Lucas Mandacaru

 

WOON: Então essa ideia, do seu mais profundo interesse, nasceu do seu olhar para as estruturas das pedras (da Terra e da natureza), e você está dando a ela um sentido metafórico?

MILAN: O quartzo enquanto metáfora é meu ponto de partida. Eu o decifro e aprendo com suas batalhas justamente para continuar a existir, a lutar contra tudo o que não pertence a minha natureza. Essa visão artística me autorizou a atravessar as camadas da matéria e transformar seus estágios evolutivos em passos do conhecimento. É assim que eu concebi, pictoricamente, a “linguagem das pedras”.

 

METÁFORAS E ESTRUTURAS SOCIAIS

WOON: Então seu projeto, nos últimos três anos, tem sido trabalhar com as comunidades.

MILAN: Sim, mas não exclusivamente. Continuo meu trabalho no estúdio e também o compartilho com as pessoas das comunidades. Eu queria verificar se essa linguagem das pedras poderia tocar outras pessoas assim como havia me tocado. Poderia esta linguagem transformar as pessoas, ainda que lentamente - como uma gota d´água lançada num oceano - como havia acontecido comigo? Eu estava partindo de minha experiência artística e procurando soluções criativas para melhor traduzi-la, de modo que as pessoas da comunidade pudessem superar os obstáculos da vida cotidiana, a pobreza e a violência que fazem parte de suas vidas.

 

CATALISADORES E PROCESSO

WOON: Quero entender o surgimento do projeto como um todo. Vamos começar por essa trajetória.

MILAN: A identificação da comunidade foi feita por Regina Barros, uma educadora e ativista social que vem trabalhando com a mesma há quinze anos. Ela pensou que levar um artista para a comunidade poderia ser algo muito inspirador.

WOON: Por quê?

MILAN: Isso ficou claro quando os líderes da comunidade disseram que uma artista como eu trazia inspiração porque os ajudava a enxergar o potencial que eles mesmos tinham. Eles poderiam se identificar simbolicamente com a estória das pedras; e essa estória tornou-se enfim a narrativa deles. Uma delas, a Genésia, disse assim: “Eu parei de sofrer com a morte do meu filho. Aprendi a não deixar a dor invadir meu coração, e que todo meu amor está protegendo essas crianças.”

WOON: Vamos aos motivos que a levaram a trabalhar com as comunidades. Você falou do Brasil, do que temos em comum, do que nos faz semelhantes. Mas há questões que dizem respeito ao Brasil como, por exemplo, a diversidade econômica e alguns abismos muito profundos entre aqueles que têm recursos e oportunidades e aqueles que não têm, certo?

MILAN: Sim, correto. Não me sinto nada confortável com o que acontece no Brasil. Tive uma experiência incrível com Ruth Geni Donário, a caseira que cuidava da minha casa da praia, no estado do Rio de Janeiro. Começou com as conversas que tivemos ao longo das caminhadas pelas trilhas das montanhas e florestas ao redor; a ideia é que ela me contasse sua estória e o modo como ela entendia a natureza e seus ciclos. Eu aprendi a olhar a natureza desse lugar com uma consciência diferente, de uma perspectiva dos povos indígenas que lá habitaram. Isso me inspirou profundamente. Fiz um livro e um documentário sobre o que a Ruth chamava de “Fumaças da Terra”; esse trabalho se desdobrou mais tarde numa exposição de foto-colagens, no Chicago Cultural Center, em 2012. Ao preparar essa exposição, tive que trabalhar com a falsa ideia do paraíso. Você sabe, as pessoas vem para cá acreditando que o Brasil é um paraíso. Não. Essa é uma imagem superficial, mas quando vamos fundo descobrimos o verdadeiro paraíso. Eu me sentia desconfortável em ficar somente na superfície, precisei revelar esse paraíso real e ir fundo na dor. Imaginei poder devolver aos habitantes do vilarejo - os descendentes de grupos indígenas e primeiros habitantes desse lugar - o que a eles pertence. O conhecimento do lugar pertence a Ruth, aos pescadores e suas vilas. Nós não podemos falar por eles, não somos seus representantes, mas penso que uma nova maneira de colocar a questão tem que ser despertada. É como a metáfora de escutar a voz das pedras, quando é óbvio que uma pedra não tem voz, mas há uma estória de sua gênese. Estou escutando, prestando atenção à linguagem das pedras.

WOON: Claro, escutar é parte importante do processo. Usar e entender a pedra como uma metáfora faz parte desse processo de ajudar as comunidades urbanas a se tornarem auto-suficientes, ajudá-los a encontrar a própria voz dentro da estrutura deles. Essa experiência artística se deu realmente sobre uma realidade multifacetada, e o que ajudou que assim fosse é que a metáfora que você criou é interdisciplinar, foi e pode ser trabalhada no tempo histórico, em uma série de eventos. Esse trabalho não ficou restrito às artes visuais, foi teatro também. Eles assistiram a Ópera das Pedras. Eles escreveram textos e aprenderam sobre ciência. É como se cada comunidade tivesse se apropriado do seu trabalho de modo próprio, tivesse encontrado o que ressoava através desse processo, o que funcionava dentro das estruturas e culturas em que vivem. Você trabalhou com seis comunidades, certo?

MILAN: Sim, o projeto seguiu a estrutura do quartzo, como nessa representação abaixo, nesse desenho da estrutura da célula do quartzo, com seis extremidades.

Imagem: Marcus Vinicius Furtado

 

A ESTRUTURA E AS COMUNIDADES

WOON: Você estruturou todo o projeto visualmente, com seis partes do quartzo, seis comunidades. Como você reuniu a equipe para fazer isso?

MILAN: Bom, foi um por um, e sabia que cada um que se apresentasse traria algo especial para todo o time. Cada pessoa que se apresentava tinha uma estrutura ou um modo de entender a vida que se conectava com esse projeto. Como cada um pode ser parte do todo? Regina Barros, por exemplo, me apresentou à comunidade de Heliópolis.

WOON: Você pode falar sobre a Regina?

MILAN: Regina, através de sua experiência como professora, vem trabalhando nas comunidades carentes por muitos anos. Ela exerce um papel de liderança na UNAS (Associação de moradores de Heliópolis). Ela queria trazer mudanças mais profundas à comunidade. A ideia é que ela procurasse em meu estúdio trabalhos que a ajudassem a implementar essas mudanças. Ela escolheu vídeos que eu tinha feito dentro das cavernas de ametista do sul do Brasil para melhor entender as formações do quartzo, pegou vídeos de trabalhos meus anteriores, trabalhos que mostram todo o processo de como eu transformei meu olhar, ao recriar as pedras e a Terra, por assim dizer. O que ela procurava era um caminho de aprendizagem para a comunidade, no sentido desta entrar em contato com o jeito de pensar do artista, com o modo do artista traduzir suas pesquisas, visões e conceitos, em esculturas urbanas ou em exposições, em museus ou galerias. Eles responderam escrevendo poemas incríveis, desenhando ou criando uma instalação. Entrar em contato com o modo de trabalhar do artista gerou uma nova criatividade entre eles, dando voz à comunidade e abrindo nesta um novo leque de possibilidades. Marcus Vinicius Furtado, meu assistente técnico do estúdio há quinze anos, guardou meus arquivos digitais e ajudou a Regina a selecionar alguns vídeos e preparar o material educativo - pedras, amostras de pedras, imagens, fotos de alguns trabalhos de arte - tudo o que pudesse ajudar a comunidade em seu processo de aprendizagem da linguagem das pedras.

WOON: Quais atributos do quartzo, dentro do seu programa educativo, foram desenvolvidos? Em que medida eles evocam metáforas significativas para essas comunidades em transformação?

MILAN: Adaptação: a habilidade de se reestruturar quando é ameaçado ou atacado; se o quartzo não se transformar em uma estrutura cristalina, de um jeito ou outro, irá se adaptar entre as fendas nas rochas e encontrará um modo de existir. Sobrevivência: busca incessante do desenvolvimento ou evolução; o quartzo se conecta a uma rede cuja estrutura tem uma tem uma tendência à sobrevivência (Gênese do Quartzo). Equilíbrio: entre polaridades, a estrutura sempre cria equilíbrio; é quando se dá a correspondência entre as diferentes partes de um conjunto. Agregação: as unidades independentes se juntam ao todo sem perder seu potencial original, preservando suas diferenças, formando uma rede cristalina. Expansão: possibilidade de expandir/reproduzir a sua estrutura gerando um cristal afiliado a si mesmo; assim acontece em diversos lugares (vale lembrar que ele está presente em 90% da crosta terrestre, ou seja, ele é comum, e o que é comum é o que nos une. Constância: as moléculas vibram em uma sequência constante, gerando um ritmo único em harmonia com o todo; mesmo em diferentes lugares, elas têm o mesmo processo de criação.

MILAN: Uma estrutura da natureza é usada como uma metáfora capaz de ensinar as pessoas a pensar não somente na sobrevivência, mas também como essas diferentes partes da vida podem ser contempladas no sentido de nos tornarmos conscientes delas enquanto parte do processo, atentos aos meios e não somente aos fins. Sinto que todos os sistemas, e sobretudo o sistema econômico, entraram em colapso, é uma questão de valores. Isso causa um impacto ambiental. Porque essas coisas estão acontecendo? Devido às estruturas sócio-econômicas que prevalecem. Acho que temos que buscar os sistemas que sobrevivem, que vão além do tempo, que não estão em crise.

WOON: Você está falando de sistemas sustentáveis.

MILAN: Sim.

WOON: Regina, que fazia parte de sua equipe, tem uma admirável experiência de ensino.

MILAN: Sim, e também uma incrível relação com a comunidade. Não basta você chegar em uma comunidade e usá-la de acordo com os seus propósitos, não se trata de chegar a um resultado que não leve em conta os desejos da comunidade.

WOON: Sim. Cheguei bastante cética a este projeto. Tenho visto muitos projetos de artistas cuja intenção, ainda que seja boa em relação à comunidade, é um pouco ingênua, no sentido deles não entenderem o contexto histórico ou cultural com o qual estão lidando. A intenção é boa, mas erra-se o alvo. Geralmente serve para “alavancar” a carreira do artista, mas faz com que a comunidade se sinta usada e desrespeitada, e acaba não gerando um impacto sustentável. Você realmente formou uma equipe de colaboradores, conte um pouco sobre as pessoas da equipe.

MILAN: Claro. Carla Gouvêa chegou através da Regina. Ela passou por todo o processo da gênese do quartzo e se transformou ao longo do processo. Ela disse “Denise, preciso ir ao seu estúdio, me alimentar com o seu trabalho, daí sim continuar o meu”.

WOON: Carla tinha trabalhado um bom tempo na comunidade, para começar?

MILAN: Ela havia feito um trabalho significativo com a comunidade por muitos anos, enquanto pedagoga, e através do meu trabalho ela se conectou com as artes visuais. Ela nos disse que primeiro deveríamos ir à comunidade e ouvi-la. Nós então mergulhamos em suas estórias, passamos a entendê-las. A sequência do trabalho foi a seguinte: 1) fazer a ponte com a comunidade; 2) Carla fez a ligação dos dois lados trabalhando para o programa do SESI (Serviço Social da Indústria) enquanto analista técnica da área educacional; 3) organizar encontros e conversas; 4) convidar as pessoas da comunidade para visitar meu estúdio, tocar as pedras, observar os processos, e finalmente discutir como eles percebiam as conexões com suas próprias vidas e com a comunidade. No começo foi caótico.

WOON: Fale um pouco da formação da Carla.

MILAN: Ela tem uma profunda compreensão da comunidade e de como estabelecer conexões com a mesma. Ela conhece os pontos problemáticos. Ela sabe como envolver as pessoas certas para o projeto porque as pessoas confiam nela.

WOON: Certo. Parece que escutar e respeitar são dois pontos essenciais de se trabalhar com as comunidades. Uma das coisas que conversamos a respeito era a ideia de conhecimento coletivo. Geralmente as comunidades em risco ou desvantagem são vistas como comunidades sem qualquer tipo de recurso, mas realmente há pessoas com profundos conhecimentos que precisam ser conhecidos e partilhados, mesmo dentro da comunidade. Quem são os outros participantes que se uniram ao projeto?

MILAN: No primeiro ano foi a Regina, Carla, e eu, e nós identificamos os líderes da comunidade que mais se encaixavam nesse tipo de trabalho.

WOON: E vocês trabalharam apenas com uma comunidade por um ano inteiro?

MILAN: Não. Nós organizamos uma oficina de trabalho por quatro meses. O trabalho consistia em apresentar o material para a comunidade e discuti-lo de modo que cada um o adaptasse a sua realidade. Rosa Iavelberg foi parte importante da equipe. Ela tem um profundo conhecimento dos métodos pedagógicos. Carla trabalhou para erguer o projeto junto a comunidade, adaptando-o à sua realidade de modo a torná-lo viável e mais robusto. Eu aprendi muito trabalhando com elas nesse processo de organizar o projeto. No primeiro ano Cléo Miranda, educadora social, fez a curadoria da exposição Coração de Ametista (2010) comigo. Era uma instalação onde as pessoas podiam interagir com a pedra, observar e vivenciar a formação do cristal. No segundo ano nós fizemos e publicamos Pedra Azul (2011), um livro para crianças. Esse texto nos ajudou imensamente a tornar a estória acessível às crianças da comunidade. Portanto tivemos esses dois eventos artísticos mencionados acima: a instalação e a leitura teatral do livro. Para desenvolvermos os materiais do projeto -“O Manual do Professor” - fizermos uma pesquisa científica. Fui influenciada pelos estudos do geólogo brasileiro Fernando Flávio Marques de Almeida, que fez expedições entre a África e o Brasil. Foi ele quem encontrou a prova da separação dos continentes. Ele foi a pessoa que me inspirou a ver a importância simbólica dos estratos de nossa geografia e geologia, e como tais estratos são formados, do caos a ordem. Ernest Moniz, um físico teórico nuclear que trabalha com energia e mudanças climáticas descreveu meu trabalho com as pedras da seguinte maneira: “O que você faz é apresentar artisticamente esses fenômenos através de uma ponte poética...”. Isso me tocou bastante. Também tive oportunidade de conversar sobre isso com outros cientistas do MIT que se interessaram muito pelo meu trabalho. Sônia Barros, geóloga da USP que colaborou com Fernando Almeida, integrou suas descobertas ao nosso projeto. Outro geólogo também ajudou na organização do material educativo. Ou seja, a base do trabalho era a geologia, mas ele se transformou em algo profundamente simbólico. É realmente a poesia da Terra, não é ciência.

WOON: Pelo que entendi essa grupo de pessoas faz parte de sua rede social.

MILAN: Exatamente. Gesa Waitz é outra pessoa que faz parte da equipe; desde 2010 é ela a responsável pelo planejamento executivo do projeto. Ela foi minha assessora no processo e coordenou o trabalho da equipe.

WOON: Ela foi, ao que parece, uma grande facilitadora.

MILAN: Exatamente. Temos a catalizadora, que sou eu, e a responsável pelos vínculos, que é a Gesa, aquela que fez com que as “moléculas do quartzo” se comunicassem.

WOON: Como você identificou as pessoas da comunidade com as quais trabalhou?

MILAN: Carla já conhecia as pessoas. O SESC teve um papel importante também; se eu não tivesse tido o apoio de alguém como o Danilo Santos de Miranda (Diretor do SESC SP), que confiou no caráter experimental do trabalho, nada teria acontecido.

WOON: Você pode me dizer o que é o SESC?

MILAN: SESC é Serviço Social do Comércio.

WOON: Como funciona?

MILAN: SESC é uma instituição muito importante aqui no Brasil, é uma das maiores patrocinadoras de arte e dos eventos culturais no pais. O que eu propus a eles foi um trabalho experimental. Assim realizei a Ópera das Pedras. Quando eu disse que as pedras “cantavam” eles olharam para mim e certamente pensaram: do que ela está falando? Mas depois eles defenderam meu projeto, tanto a Ópera quanto o DVD da mesma, e também o projeto posterior com as comunidades. Essa ópera começou com uma equipe de jovens cineastas que vieram trabalhar comigo. Meu estúdio se transformou em uma caverna, uma espécie de laboratório, onde fizemos o DVD para a Ópera das Pedras - Primeiras Vozes. Foi um vídeo de arte experimental. Isso se deu no mesmo ano em que eu estava trabalhando com a comunidade. Muitos líderes da comunidade assistiram esse vídeo e o Espetáculo da Terra.

WOON: As crianças assistiram a Ópera ou foram apenas os líderes da comunidade?

MILAN: Algumas crianças assistiram, mas a Ópera era sobretudo um espetáculo para os adultos. No segundo ano publiquei uma adaptação da Ópera, na forma de um livro infantil, e também fiz a instalação interativa Coração de Ametista, integrei esses dois eventos no projeto com a comunidade.

WOON: Então foi realmente um projeto interdisciplinar que fazia conexões entre arte e ciência, um projeto guiado pelo artista, a equipe, e os membros da comunidade?

MILAN: Sim. O processo de criação da Terra é um bom exemplo, para começar. Você percebe como tudo se adapta, como as coisas podem ser separadas, ou como as coisas dão certo, como elas se ajustam, sobrevivem, desaparecem. É um processo.

WOON: Pude constatar que a presença da Regina e da Carla foi essencial. Havia outros parceiros dentro da comunidade. Foi então que você conheceu Genésia Ferreira da Silva Miranda.

MILAN: Genésia e Antônia Cleide Alves são líderes da comunidade de Heliópolis e foram essenciais para que esse projeto tivesse sucesso. Na segunda edição já contávamos com uma líder de cada comunidade. Em Grajaú, Lu Nunes, no Jaguaré, Andrea de Carvalho Zichia. Cada comunidade tem sua própria característica, mas o modelo que foi desenvolvido em Heliópolis funcionou bem em outras comunidades. As líderes e representantes das três comunidades exerceram um papel transformador dentro do projeto como um todo. Todas vieram para o estúdio para participar de uma espécie de retiro. Elas tiveram sua primeira conexão com as pedras e foi uma reunião iluminadora.

WOON:. Você pode me dizer qual o papel de cada uma nessa estória? Parece que Genésia foi a líder, uma espécie de mãe, alguém que estava lá de fato, envolvida com a comunidade.

MILAN: Genésia é como Agrégora, a mítica protagonista que assim nomeei depois de me deparar com um geodo de ametista - com cento e trinta milhões de anos - o primeiro princípio feminino, geodo que identifico como sendo a alma da Terra. Na Ópera, Agrégora guia a população de ametistas dos subterrâneos no sentido delas se tornarem conscientes de sua própria natureza, seguindo o sol interior do seu coração (a formação que aparece em raras ametistas, uma em mil), sol este que representa a iluminação do processo. Genésia é quem mais identificamos como sendo Agrégora, porque ela agrega pessoas e experiências.

WOON: E havia dois outros líderes comunitários, eleitos representantes de Heliópolis?

MILAN: Você conheceu Antônia Cleide Alves, presidente da UNAS (União de Núcleos, Associações e Sociedade de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco) importante para o processo, e Fabio Rodrigues Martins Roseira (gerente de um dos Centro de Crianças e adolescentes e membro da TANU). Todos eles se reuniram e fizeram o projeto acontecer; eles trouxeram o projeto para as comunidades. Primeiro Regina convocou os líderes para o estúdio para ver se eles aceitavam a proposta e em que medida a proposta seria interessante para eles.

WOON: Acho que uma parte muito importante é encontrar a liderança dentro da comunidade e ouvi-la atentamente, mostrando respeito pelas pessoas e pela comunidade como um todo. Perguntar se eles sentem que o projeto é relevante para eles e para a comunidade.

MILAN: Claro, se não há nenhuma ressonância você vai lá e acaba sendo um invasor. As pessoas “têm boas intenções” mas esse não é o caminho. Você deve perguntar e ter certeza de que o projeto é bem-vindo e é relevante para a comunidade e seus membros.

WOON: Fomos para Heliópolis e você me fez acreditar quando ouvi Genésia falar. Você deu-lhe uma das suas obras que era uma colagem de fotos na qual havia uma imagem dela, e também das crianças do bairro, e fez uma alusão à Agrégora, essa personagem mítica.

MILAN: Quando eu fiz essa colagem aconteceu algo poderoso, porque estávamos representando as vidas preciosas dentro da comunidade. Heliópolis significa Cidade do Sol, e a "Pedra do Sol" (coração da ametista) é de um dos meus mitos. Então, ela é a pedra que brilha, o sol que a todos orienta. Genésia é o sol na colagem, ela está abrigando todos esses corpos, como a deusa Ísis, a deusa egípcia, ou como a Madonna, que vemos nas imagens medievais. É importante que eles possam identificar, dentro de suas comunidades, os seus próprios catalisadores, as suas próprias histórias. Este é um dos papéis do projeto, dar a eles essa abertura. Genésia ficou profundamente comovida com esse presente, com essa colagem de fotos. Ela falou sobre o quanto tinha aprendido, o quanto ela havia se transformado. Ela tornou-se consciente de que o sofrimento ainda persistia, mas que não tinha de ser pesado em seu coração, que faz parte da vida. Ela encontrou a cura para sua dor ao transcendê-la. Assim é que o projeto está funcionando para cada líder, individualmente, cada um acaba tendo consciência de estar em fase da transformação, estar em uma das camadas da pedra poder ir para a próxima etapa. O projeto acontece, afinal, pela confiança de todos neste processo. Eles são os intérpretes desse conhecimento, porque isto não é algo ensinável. Você pode ensinar matemática, mas não pode ensinar o que é o sonho de uma pessoa.

WOON: Outra coisa que eu notei foi que os professores, aqueles que trabalham nos centros comunitários com as crianças, implementando esses programas e falando sobre a transformação. A Kelli Cristina Vicente, por exemplo, percebeu e falou, de repente, que isso não é apenas sobre pedras, mas trata-se de como alguém pode olhar para um objeto e interpretá-lo, dar a ele um significado. Esse projeto transformou o sentido de possibilidades dessa mulher, do que algo pode vir a ser.

MILAN: O que é maravilhoso, Wendy, é que eu mesma também tenho me transformado ao longo de todo esse processo. Você sabe, as minhas crenças de antes não são as minhas crenças de agora. Hoje, quando falo sobre a Ópera das Pedras, eu penso que aqueles que participaram desse processo são parte dessa Ópera das Pedras. Essas gerações são as novas ametistas, a população de ametistas. Eles são a base. Pensando agora no cortejo que criamos coletivamente, reunindo toda a comunidade para participar de uma celebração pública. Trata-se de uma estrutura visível, de algo evidente, de uma transformação. Eu aprendi vendo a Kelli como a nova líder de sua geração, uma pessoa muito aberta, para tudo receber e com isso se transformar. Com a Kelli as crianças criaram um jogo de tabuleiro com regras, suas interpretações do processo. Era um jogo que os conectava uns com os outros, com o Brasil e com a Terra, um jogo construído e elaborado por todos os participantes.

 

PROJETO DE EXPANSÃO PARA NOVAS COMUNIDADES

MILAN: Mais duas comunidades entraram no projeto no segundo ano, em 2011. Robert Loeb, um arquiteto, nos colocou em contato com a comunidade do Grajaú. Eu fui lá conhecer os líderes e perguntar se eles gostariam de escutar sobre o projeto. Eles vieram ao estúdio. Sentamos para conversar e eles ficaram contentes em fazer parte de algo assim. Mostramos a eles o que havia sido feito em Heliópolis. Para mim estava claro que tinha que ser três, um triângulo, e disse isso à Carla. Tento sempre trazer a geometria, porque ela nos ensina, nos ajuda a dar forma ao desenho dos projetos. No segundo ano me dei conta da importância de trabalharmos com alguma estrutura, foi então que Rosa Iavelberg, da Faculdade de Educação da USP, passou a fazer parte da equipe. Precisávamos da experiência da Rosa na equipe. Ela trabalhou no Ministério da Educação do Brasil desenvolvendo projetos de estruturas curriculares e formação de professores em todo o país. Rosa tem um amplo conhecimento sobre arte-educação e compreende o processo como um todo, sabe a importância da escolha dos artistas, do treinamento dos professores e do desenvolvimento de um bom curriculo. Ela criou um material educativo capaz de traduzir a poética do meu trabalho, um material capaz de despertar o interesse dos estudantes e dos professores dentro da sala de aula. A medida que o projeto e a equipe foram evoluindo Rosa tornou-se uma peça fundamental e valiosa; ajudou-nos a elaborar o conceito de arte-educação e a fazer com que os diálogos acontecessem dentro da equipe. Seu conhecimento sobre a estrutura da arte-educação no Brasil poderá, através desse projeto, sobretudo se ele vier a se expandir, servir de exemplo para muitos outros projetos no futuro. No ano da segunda edição do projeto Carla sugeriu-nos outra comunidade, a do Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, onde ela também trabalhou por muitos anos como coordenadora responsável pela implementação de um método educativo e pelas discussões acerca dos valores humanos. A relação dela com a comunidade e o entendimento que ela tinha sobre os princípios do meu trabalho – a analogia entre o quartzo e os seres – fez com ela enxergasse um alinhamento entre os dois, que serviria para fortalecer os valores humanos. Tínhamos então três comunidades, em São Paulo. Depois Rosa ajudou a implementar o que Regina e Carla haviam criado no primeiro ano. Fizemos uma série de workshops no terceiro ano, em 2012, junto com o SESC e as seis comunidades, e isso culminou num grande evento, O Dia da Terra, numa performance urbana realizada com todas as comunidades no Parque Nacional do Ipiranga. Eu escolhi o Parque do Ipiranga por ser este um lugar histórico de São Paulo, o marco da independência do Brasil. Primeiro os participantes se reuniram formando o átomo do cristal, se organizaram de acordo com a pauta que desenhamos, pensando na música. Depois, partindo do Sesc Ipiranga, levando suas pedras preciosas escolhidas – as pipas feitas por eles mesmos, uma representação de suas vidas preciosas – caminhavam até o Monumento da Independência do Brasil, onde Agrégora, interpretada pela cantora Badi Assad, as aguardava. Os jovens, ao redor do monumento, ocuparam esse espaço publico com o vôo de suas pipas, celebraram então a criatividade e a liberdade; os jovens, neste ato público, ali estavam, enquanto agentes transformadores duma realidade social.

 

O PROCESSO DE CRIAÇÃO DO LIVRO INFANTIL

MILAN: Escrevi o livro infantil em co-autoria, meu desejo era contar a estória da conexão com a Terra. O livro A Pedra Azul foi publicado pela Caramelo, uma marca da Saraiva, editora brasileira.

WOON: Este livro infantil era para ser usado nas comunidades como parte de todo o currículo?

MILAN: Sim. Porque se torna muito mais fácil quando contamos uma história. Eles se reconhecem nos personagens da estória, como Confuso, Ordenatrix, e Violetaluz, que foram criados inicialmente na Ópera das Pedras. Agrégora, a protagonista, pode ser identificada na comunidade. As personagens representam as seis fases de transformação.

WOON: Eu assisti os vídeos do que as crianças fizeram em resposta ao trabalho com as pedras. Elas começaram com o livro. Os líderes que trabalhavam no período depois das aulas foram treinados e trabalharam no programa para serem capazes de estudar esses diferentes aspectos do quartzo, e o que podemos com ele aprender. Cada comunidade teve uma interpretação diferente. Você pode falar sobre cada uma das comunidades e como elas interpretaram isso? Comece com aquelas que mais surpreenderam.

MILAN: Quando eu fui para Grajaú no segundo ano, após a experiência que eles tiveram no SESC, incluindo o desfile, eles me convidaram para a encenação “O Fim da Terra”, criada por eles. Chamei Carla para vir comigo e um cineasta para documentar esse evento. Quando lá chegamos havia um brinquedo gigante no jardim, era a construção do átomo do quartzo que eles haviam feito. Era uma estrutura de madeira tridimensional com cortinas por onde eles iriam atuar. Eles estavam se movendo dentro das estruturas do átomo.

WOON: Eles interpretaram isso de um modo que fez com que as pessoas pudessem experimentar a aprendizagem, a aprendizagem através do corpo de toda essa estrutura.

MILAN: Depois, eles me levaram ainda mais longe. Eles criaram essas moléculas, nas quais escreveram suas estórias. Eles nunca haviam escrito sobre si mesmos, não tinham noção de identidade. Passou a ser uma busca de identidade. Num canto havia uma maquete intitulada “A primeira evolução – a primeira maquete da evolução social”. Então eu pensei comigo: “Uau, eles estão abrindo uma nova janela no leque de possibilidades”. Acredito na arte como uma experiência total. Não acredito na arte como um objeto que alguém pode comprar; nem colecionadores, nem galerias, nem museus. O titulo do trabalho era “A primeira maquete da evolução social” e no subtítulo escreveram “tudo está ligado”, e assinaram o trabalho.

WOON: Maravilhoso.

MILAN: Como disse Genésia, “essa é a nossa experiência”. O artista está ali como um catalisador. Você pode gerar um processo de criatividade através da sua visão. Eu nunca perdi a visão desse processo porque a autoria está sempre presente.

WOON: Fale um pouco sobre o que aconteceu nas outras comunidades.

MILAN: A comunidade do Jaguaré reinterpretou a estória do livro infantil em forma de uma peça de teatro intitulada “Entre Dois Mundos: Pedro e a Princesa Pedra Azul”. Nela, uma menina fazia o papel de Agrégora, e essa personagem era convidada pela comunidade para ir até lá e ver seus problemas, ou seja, o oposto. Ela é um mito inventado que pertence ao mundo dos subterrâneos, que possui a sabedoria desses reinos.

WOON: Então eles usaram o teatro como uma resposta?

MILAN: Eles criaram uma peça. E os personagens do subterrâneo eram os atores da comunidade. Eles abraçaram o mito e fizeram com que este fosse reconhecido dentro das comunidades.

WOON: Interessante. Então eles tomaram posse daquela estória, se reconheceram no processo. Então eles de fato a interpretaram e dela se apropriaram.

MILAN: Mais uma vez eles me surpreenderam.

WOON: Alguns deles também criaram dioramas. Uma caverna foi construída com as caixas de leite que as crianças coletaram. Eles criaram uma caverna de tamanho natural com as pedras.

MILAN: Eles pediram caixas de leite vazias para as comunidades. Foi algo sustentável que eles fizeram ao reciclar as caixas, e todos colaboraram. A comunidade estava participando, dando às crianças o que elas precisavam para construir a caverna. Cada caixa era uma pedra.

WOON: Quando caminhamos por Heliópolis começamos a ver pequenos objetos pendurados sob as janelas, garrafas de refrigerante transformadas em vasos de plantas. Um dos líderes da comunidade disse, “Sim, estávamos tentando trazer a natureza de volta a Heliópolis”. Esses pequenos gestos, essa ideia de trazer a natureza de volta a comunidade, pareciam ser também outra realização dentro da cadeia de eventos.

MILAN: Isso reforça o fato de que eles não tem espaços abertos para brincar.

WOON: Umas das minhas questões é o grande desfile final. Sou sempre cética em relação a esse tipo de manifestação pública, mas quando sua equipe me contou que essas comunidades não tinham espaço para brincar ou simplesmente se reunir, compreendi o valor disso. Cada criança tinha uma pipa representando sua pedra escolhida e tinha que apresenta-la em um espaço publico significante para elas. Para essas comunidades ocupar aquele espaço era se tornar visível. Comunidades que são política e economicamente marginalizadas são geralmente invisíveis, e isso eu percebi ser algo que eu não deveria descartar com ceticismo.

MILAN: O lugar foi escolhido por ser um espaço histórico simbólico. A independência do Brasil de Portugal foi proclamada aqui. Foi nesse momento que deixamos de ser colônia, que nós começamos a ter nossa própria história. Aqui, entretanto, ao invés do príncipe de Portugal declarando a independência do Brasil, era o príncipe se reinventando e lutando pela sobrevivência da Pedra Azul, a Terra. Essas crianças estavam lá para celebrar a liberdade enquanto pedras preciosas – as crianças do Brasil. Esse foi um momento de alegria, as seis comunidades estavam se reunindo; isso nunca tinha acontecido antes neste país. As comunidades marginalizadas se reuniram no centro, nesse lugar histórico significativo. As pipas eram um símbolo da aspiração coletiva e uma demonstração de solidariedade e auto-estima.

WOON: Perguntei à Kelli o que era sua pedra e ela disse ser o olho de um tigre. Qual foi seu objetivo ao fazer com que cada indivíduo se identificasse com uma pedra preciosa?

MILAN: A ideia dessas pipas foi de Manuela Mena, a curadora e responsável pela restauração das obras do Goya, no Museu do Prado. Quando ela esteve no Brasil ela viu as crianças brincando de empinar pipas e disse, “Essas crianças tem que ser vistas pelo mundo. Seus sonhos não estão tendo a atenção que merecem e é importante dar visibilidade a eles. De forma que o cortejo é o momento em que eles se tornam visíveis para todo mundo. O trabalho acontece coletivamente. Por exemplo, quando estive em Chicago, Amina Dickerson, uma consultora de arte que também trabalha a arte como um instrumento de transformação social, sugeriu que cada participante fosse uma pedra preciosa. Como você pode ver, esse projeto tem muitas camadas, a colaboração de muitas pessoas.

WOON: Você tem uma rede de pessoas que participam do projeto, é como se elas fossem parte de uma rede maior, das suas conexões.

MILAN: Sim, creio que não temos todas as respostas. As pessoas nas quais confiamos são aquelas com quem estamos compartilhando nossas vidas, nossos ideais, pessoas que nos enriquecem de algum modo. Incorporei algumas sugestões e houve transformações, indo do caos à ordem. Trazer o conceito das pedras preciosas para dentro da comunidade foi perfeito, pois cada participante poderia trabalhar sobre a ideia da transformação, do caos à ordem interna, onde algo precioso poderia surgir. As crianças e os adultos adoraram escolher suas pedras preciosas, isso foi uma espécie de confirmação, no sentido de eles terem agora uma identidade conectada às origens. Nas comunidades, em geral, as famílias são fragmentadas, os pais são ausentes, as mães trabalham fora o dia inteiro - isso os faz sentirem-se abandonados, desprivilegiados. Essa experiência os ajudou a enxergar que eles pertencem e fazem parte de um mundo mais amplo. Cada um é uma pedra preciosa. O objetivo, no dia do cortejo, era que as imagens de diferentes pedras preciosas impressas em banners abrissem o evento, seguidas pela euforia das pipas em grupos, cada grupo simbolizando cada uma dessas pedras e ali se reunindo, formando um grande grupo. É como se fosse uma romaria, uma encenação de nossa herança. Lembremos também do carnaval, que é uma viagem aos espaços imaginários. Os rituais sempre existiram – algumas tribos indígenas eram nômades e migravam de um lugar para o outro procurando sua terra prometida, os romeiros caminhavam rumo ao Santuário Nacional de Nossa Padroeira Nossa Senhora. Essas romarias fazem parte de nossa história, são uma renovação de nossas crenças e nossas tradições, algo que existe aqui como uma profunda experiência cultural. O dia do cortejo é o dia de reviver o sonho de transformação, eles vivem isso como uma reencenação.

 

AVALIAÇÃO E SUSTENTABILIDADE: IMPACTO COMUNITÁRIO

WOON: Como você avalia este projeto? Ele terá continuidade?

MILAN: As pessoas da comunidade que participaram dessa experiência estão agora falando sobre isso. Eles se identificaram com o projeto que agora é deles. Estamos documentando o que estão dizendo por meio de entrevistas e é evidente que o projeto está transformando as pessoas.

WOON: Pensando que eles identificaram e articularam suas próprias trajetórias, o que você acha que eles aprenderam, quais os prós e os contras? Em relação ao documentário que as crianças fizeram, por exemplo, é através dos depoimentos do que essa experiência significou para eles que você vai medir o impacto do projeto?

MILAN: Sim.

WOON: As apresentações durante a minha visita também são importantes. O que realmente me impressionou foi aquelas adolescentes, entre doze e quatorze anos, que se levantavam e se manifestaram a respeito; eram tão bem articuladas! Quanta confiança e desenvoltura em suas falas!

MILAN: Temos a catalizadora, que sou eu. Você tem que ter o vínculo para que as moléculas se unam. Você tem que trabalhar como se fosse a própria estrutura do átomo. E você, Wendy, sua generosidade em dar visibilidade a esse projeto, de expandi-lo a um público maior, faz parte disso. A ideia é escutar e entender o que foi feito para que o projeto possa vir a ser um modelo para futuros projetos em outras cidades, como Chicago. Estou interessada em sustentabilidade e em como energias positivas podem ser geradas em novos lugares.

WOON: É difícil traduzir um projeto como este e seu impacto. Acho que esse é sempre o desafio com qualquer tipo de experiência educacional transformadora. Toda vez que você faz o projeto com outra comunidade, você está repensando as coisas, está mudando as coisas para responder a um novo contexto. Uma das coisas que eu queria te perguntar é sobre a sustentabilidade desse projeto. Você criou um programa, e começou algumas conversas em Chicago. Há uma lição em sua experiência de trabalho com os líderes que podemos aprender, um ensinamento que pode realmente ser incorporado pela comunidade?

MILAN: Esses ensinamentos tem que ser incorporados pela comunidade, do contrário tudo o que estou fazendo perderia o sentido. Quando você conheceu minha filha Manuela, que esteve imersa num projeto de microcrédito para mulheres, no Grameen Bank, na Índia, você disse “Bom, esses sistemas micro-econômicos poderiam fazer parte disso”. Eu não sei como. Como você imagina isso?

WOON: Eu não sei. Acho que quando você estimula os líderes a enxergar suas possibilidades, e também a fazer com que as comunidades enxerguem o que elas talvez não soubessem ser um recurso e um conhecimento coletivo, você é capaz de catalisar algo, fazer com que algo saia do caos, mude de estado e se organize. Quando eles começaram a refletir sobre o quanto eles sabem e quando você olha para estas pessoas, como Genésia ou Kelli, você vê que existem pessoas que são líderes, pessoas competentes e cheias de recursos. E eu amo isso, muito disso vem de mulheres. Toda essa história tem sido uma história de mulheres. Havia homens, certamente, mas o que mais me impressionou é que eram mulheres se conectando e se comunicando com mulheres, compartilhando suas experiências e conhecimentos. Isso realmente incentiva outras pessoas. Como acontece nas microeconomias, os projetos em geral começam da iniciativa de alguém com uma grande ideia, mas sem recursos, então um grupo de mulheres passa a apoiar outras mulheres, dando suporte e tornando possível a viabilização de suas ideias. Através da mutua confiança elas levam essas ideais ao campo do possível – algo pode ser gerado aí. Uma vez feito isso, a mulher que foi incentivada devolve o recurso ao grupo, para que mais pessoas possam ter essa oportunidade.

MILAN: Agrégora, a escultura de pedra de ametista, é o primeiro princípio feminino de transformação. Ela é uma pedra de 130 milhões de anos, e ela ensina sobre o processo de transformação. Acho que o processo de criação tem a ver com os princípios femininos, pode gerar vida nas comunidades.

WOON: Eu tenho insistido com você sobre a questão da tecnologia. O que me impressionou, sobretudo quando levei meu filho Ethan, de treze anos, à comunidade, é que precisamos pensar como isso se encaixa na estória. Tecnologia é hoje um importante facilitador de comunicação e de comunhão, e nesse sentido é talvez uma ferramenta capaz de dar continuidade ao projeto, torná-lo mais global..

MILAN: Maravilhoso isso. E seu filho é parte desse processo.

WOON: Exato, e ele interagiu com as outras crianças. Acredito que a tecnologia tem o potencial de alavancar os projetos, contribuir para que as iniciativas sejam bem sucedidas. Nós vimos isso acontecer no projeto com as crianças, vimos elas procurarem informações sobre todos os minerais no Google, imprimir esse material para usá-lo em seus projetos, tudo isso num curto intervalo de tempo. Elas tem acesso a muita informação através da tecnologia. E aqui estão elas, nos vídeos, tendo conversas profundas sobre as esmeraldas e suas formações, sobre as diferenças entre a esmeralda e esta ou aquela pedra. Elas dominaram esse material rapidamente pois tinham acesso à Internet, podiam procurar quaisquer informações que quisessem. Quando estávamos saindo de Heliópolis a primeira coisa que as meninas queriam saber era o endereço do Facebook do Ethan, certo? A ideia de eles poderem manter contato e continuar trocando ideias é, do meu ponto de vista, realmente interessante. O Brasil está investindo em infra-estrutura tecnológica para a Copa do Mundo, em 2014, e para as Olimpíadas de 2016. Isso irá certamente conectar as pessoas de novas maneiras e proporcionar acesso à educação. Há tantos recursos on-line gratuitos, e isso segue crescendo de modo bastante rápido. Como podem essas moléculas continuar se adaptando e se agregando, como elas podem encontrar o equilíbrio e sobreviver para além deste projeto?

MILAN: Bom, você sabe, o mundo do silício é o mundo da Internet, a natureza do silício é a mesma da internet. Você vai me dizer o que vem a seguir.

WOON: Se você fosse fazer esse projeto em Chicago, o que você mudaria?

MILAN: Bom, acho que é uma realidade diferente. Embora alguns problemas sejam muito semelhantes, eles vem de condições diferentes. Penso que o projeto teria de ser adaptado à realidade de Chicago.

WOON: E você acha que terá de encontrar um novo conjunto de líderes comunitários? Será que eles terão de vir ao Brasil para conhecer o seu estúdio, para se inspirar, ou se reunir com os líderes e membros da comunidade aqui?

MILAN: Não, não acho que eles tenham de vir para o Brasil. Penso que podemos visitar o Field Museum em Chicago e falar sobre as pedras lá mesmo. Mas acho que preciso falar com eles, explicar o meu trabalho para que eles entendam melhor, para que eles possam acessar a linguagem das pedras. Penso que a equipe daqui poderia ir para lá, três ou quarto pessoas poderiam viajar para lá.

WOON: E quem você irá envolver na comunidade? Chicago tem líderes, artistas e educadores excelentes.

MILAN: Acho que seria maravilhoso ter pessoas da comunidade, para que elas possam compartilhar o aprendizado que elas tiveram.

WOON: Denise, obrigada por conversar comigo sobre sua vida, seu trabalho, e esse importante projeto. Percebo agora a importância das conexões e o potencial desse projeto que você começou no Brasil. Espero que esse projeto continue gerando outros.

 

FIM DA ENTREVISTA